Nueva Evangelización y Catequesis. Mons. Paulo Cezar Costa
Nova Evangelização e Catequese
Mons. Paulo Cezar Costa
1. A centralidade do querigma no processo catecumenal
O papa Francisco afirma a centralidade do querigma no processo catequético. Este anuncio “é o primeiro em sentido qualitativo, porque é o principal, aquele que sempre se tem de voltar a ouvir de diferentes maneiras e aquele que sempre se tem de voltar a anunciar, de uma forma ou de outra, durante a catequese, em todas as suas etapas e momentos”. A proclamação do querigma ocupa um lugar central no processo catecumenal em todas as suas etapas e momentos. Vive-se hoje numa sociedade secularizada, onde, a evangelização não pode ser dada por certo. Papa Bento já recordava que “Sucede não poucas vezes que os cristãos sintam maior preocupação com as consequências sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria fé, considerando esta como um pressuposto óbvio da sua vida diária. Ora um tal pressuposto não só deixou de existir, mas frequentemente acaba até negado. Enquanto, no passado, era possível reconhecer um tecido cultural unitário, amplamente compartilhado no seu apelo aos conteúdos da fé e aos valores por ela inspirados, hoje parece que já não é assim em grandes sectores da sociedade devido a uma profunda crise de fé que atingiu muitas pessoas”[1].
Papa Francisco vai mais além, quando afirma que este anuncio deve estar presente “em todas as suas etapas e momentos”. O querigma como o concebe papa Francisco não é um anúncio que é feito uma vez e supõe-se que o destinatário já esteja evangelizado, mas deve acompanhar as diversas etapas e momento do processo catecumenal. O Diretório Geral para a Catequese identifica três momentos deste ato de comunicação: o primeiro anúncio, que desperta a fé (querigma); o conhecimento sistemático e a adesão progressiva a Jesus (catequese e ensino); a dimensão litúrgica da proclamação da Palavra, que implica em um juízo sobre as dificuldades da vida (perseguições) e nas circunstâncias quotidianas (homilia). Na visão de papa Franscisco, se mantem a etapa querigmática, mas o anúncio do querigma não se restringe somente a esta etapa, ele perpassa as demais etapas e momentos. O catequisando vai assim, fazendo de forma nova a experiência de “Cristo que deu a vida por ele” e vai-se sentindo envolvido e inserido neste processo de amor, sempre acompanhado pela comunidade eclesial.
O papa apresenta um dos aspectos do querigma: “O querigma é trinitário. É o fogo do Espírito que se dá sob a forma de línguas e nos faz crer em Jesus Cristo, que, com a sua morte e ressurreição, nos revela e comunica a misericórdia infinita do Pai”. O querigma não é um simples discurso, é a proclamação de um acontecimento de vida e salvação que se dá no presente daqueles que ouvem. O querigma é visto na sua dimensão trinitária. É o Espírito que nos faz crer em Jesus, que torna atual para a Igreja a presença e ação de Jesus. Papa Bento XVI, em uma sua catequese sobre a tradição dizia: Esta atualização permanente da presença ativa de Jesus Senhor no seu povo, realizada pelo Espírito Santo e expressa na Igreja através do ministério apostólico e a comunhão fraterna, é aquilo que em sentido teológico se quer dizer com a palavra Tradição: ela não é a simples transmissão material de quanto foi doado no início aos Apóstolos, mas a presença eficaz do Senhor Jesus, crucificado e ressuscitado, que acompanha e guia no Espírito a comunidade por ele reunida. Esta presença ativa do Senhor Jesus, realizada por obra do Espírito. São Paulo diz que ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor a não ser por obra do Espírito. É o Espírito que nos faz crer em Jesus. O querigma não é uma palavra vazia, pois proporciona o contato com o Jesus Cristo e produz mudança na vida. Ele é um fato novo que acontece na história: a salvação é oferecida no hoje da história. O Espírito é aquele que torna vivo o anúncio de que Jesus de Nazaré é o Filho de Deus que se fez homem, morreu e ressuscitou para a salvação de todos. O querigma ultrapassa os limites de tempo e de espaço, abraça toda a história e oferece aos homens uma esperança viva de Salvação[2]. Ele proclama uma pessoa, Jesus Cristo, esta proclamação abre caminhos para uma experiência de encontro pessoal e apaixonado por Ele. O Espírito faz experimentar a misericórdia infinita do Pai. A misericórdia do Pai já proclamada no Antigo Testamento onde Deus é hesed: bondade, fidelidade benevolente, misericórdia que perdoa, onde a hesed de Deus se manifesta maior que as infidelidades humanas: “Eu te amei com amor eterno, por isso conservei para ti o meu amor”. (Jr 31, 3)[3]. Expressa ainda pelo termo rachamim, que confere à benevolência caráter quase carnal. “Por acaso, uma mulher se esquecerá da sua criancinha de peito? Não se compadecerá do Filho do seu ventre? Ainda que as mulheres se esquecessem, eu não me esqueceria de ti!” (Is 49, 15). No Novo Testamento, Jesus nos revelou que seu Pai é o Deus da Misericórdia e do amor (Lc 15). Conforme 2Cor 1, 3 “Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”, que é o “Pai das misericórdias”. No Filho Jesus Cristo, “se manifestaram a bondade de Deus, nosso Salvador, e seu amor pelos homens” (Tt 3,4). A misericórdia de Deus pelos homens transbordou a partir de Jesus. Jesus foi a procura dos pecadores (Lc 15,1ss) Jesus faz refeição com os pecadores (Mt 9,9-13 // Mc 2,13-17 // Lc 5,27-32)[4]. Jesus ao condividir a mesa dos pecadores, ele os associa indiretamente à mesa escatológica da graça, da qual ele mesmo é o portador. Os fariseus murmuravam: “Porque come o vosso mestre com os publicanos e pecadores?” (Mt 9, 11 // Mc 2, 16 // Lc 5, 30). A posição de Jesus é daquele que se preocupa mais com o transgressor que com a transgressão, mais com o pecador que com o pecado: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes [...] Não vim para chamar os justos, mas os pecadores (Mt 9,12-13 // Mc 2,17 // Lc 5, 31-32)”. O pecador não é mais considerado como excluído do âmbito da salvação, mas convidado ao Reino de Deus mediante a oferta antecipada do perdão. É esta infinita misericórdia de Deus que o catecúmeno é chamado a experimentar no anúncio sempre renovado do querigma no processo de catecumenato.
Papa Francisco continua: “Na boca do catequista deve, voltar a ressoar sempre o primeiro anúncio: Jesus Cristo ama-te, deu a sua vida para te salvar, e agora vive contigo todos os dias para te iluminar, fortalecer, libertar”. O querigma há assim, uma forte dimensão existencial, faz o catequisando perceber a presença de Deus, seu amor, sua ação no hoje da vida, da caminhada, da história. O catequizando é conduzido pela vivacidade e força do querigma a abrir-se a Jesus Cristo que quer envolve-lo, iluminá-lo, fortalece-lo, libertá-lo. Deus atua hoje e o catequisando é chamado a experimentar esta ação de Deus. A resposta ao querigma envolve assim, a pessoa toda. Trata-se de um encontro pessoal. O inicio do ser cristão, afirmou Bento XVI, não consiste “em uma grande decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo definitivo” (cf. DCE, n. 1). O cristianismo não é uma religião do passado, Deus se dá a nós no hoje da nossa história. O Fogo do Espírito é aquele que torna o anúncio sempre presente. O querigma é um anúncio vivo, por meio do qual o próprio Senhor entra em diálogo com a liberdade das pessoas.
Diz o papa ”Nada há de mais sólido, mais profundo, mais seguro, mais consistente e mais sábio que este anúncio. Toda a formação cristã é, primariamente, o aprofundamento do querigma que se vai, cada vez mais e melhor, fazendo carne, que nunca deixa de iluminar a tarefa catequética, e que permite compreender adequadamente o sentido de qualquer tema que se desenvolva na catequese”.
Papa Francisco enfatiza que no centro do processo de iniciação à vida cristã está o querigma. Está o amor de Deus que nos tomou, nos envolveu e nos perdoou. O Catequizando, no seu processo de crescimento e aprofundamento do caminho da fé ele vai sendo colocado diante das realidades que as fórmulas de fé expressam e nos permitem ‘tocar’. Ele vai percebendo que os enunciados da fé não param em si mesmos, mas chegam até a realidade (enunciada)[5]. Assim, o catequizando vai percebendo que as verdades da fé, a ortodoxia, não é simplesmente assentimento a um sistema, mas a participação numa história na qual Deus se comunica e age e que chega até nós, através da mãe Igreja[6]. É esta experiência que o catequizando vai experimentando.
O papa enfatiza ainda: “A centralidade do querigma requer certas características do anúncio que hoje são necessárias em toda a parte: que exprima o amor salvífico de Deus como prévio à obrigação moral e religiosa, que não imponha a verdade, mas faça apelo à liberdade, que seja pautado pela alegria, o estímulo, a vitalidade e uma integralidade harmoniosa que não reduza a pregação a poucas doutrinas, por vezes mais filosóficas que evangélicas. Isto exige do evangelizador certas atitudes que ajudam a acolher melhor o anúncio: proximidade, abertura ao diálogo, paciência, acolhimento cordial que não condena”.( EG, 165).
Papa Francisco insiste em certas características que devem estar presentes no anúncio:
a. Que no inicio do caminho da fé não está a “obrigação mora”, mas o encontro com uma pessoa que me amou por primeiro. A moral provém como resposta de amor, ao Amor de Deus que primeiro me amou.
b. Que não se imponha a verdade, mas faça apelo à liberdade. A fé deve apelar a liberdade. Necessidade numa sociedade que valoriza a liberdade, apresentar a experiência da fé como “algo que liberta, nos torna livres”.
c. Seja pautada pela alegria, o estímulo, a vitalidade.
d. Uma integralidade harmoniosa que não reduza a pregação a poucas doutrinas por vezes mais filosóficas que evangélicas.
Papa Francisco mostra que esta proposta implica um perfil de agentes evangelizadores, onde o ministério dos introdutores (as) e catequistas possui papel importante. Eles são a ponte entre o coração que busca descobrir ou redescobrir Jesus Cristo e Seu segmento na comunidade de irmãos[7]. O catequista deve ser alguém que fez um forte encontro com Cristo, alguém que amadureceu este encontro. Um discípulo que vive da palavra e dos sacramentos e por isso, consegue conduzir o catequizando num caminho de discipulado. Papa Francisco propõe algumas atitudes do Evangelizador que ajudam a acolher melhor o anúncio: proximidade, abertura ao diálogo, paciência, acolhimento cordial que não condena. ( EG, 165).
2. Catequese Mistagógica
A palavra Mistagogia vem do mundo das religiões mistéricas gregas, significando iniciação aos mistérios (coisas ou doutrinas). A palavra esta relacionada com mistério e entra muito cedo na experiência cristã para significar a iniciação aos mistérios cristãos. A Igreja desde as suas origens possui esta rica experiência de introduzir, de conduzir ao Mistério, de formar mistagogos.
Papa Francisco retoma na Evangelii Gaudium o tema da Mistagogia. No n. 166 o papa diz: “Outra característica da catequese, que se desenvolveu nas últimas décadas, é a iniciação mistagógica, que significa essencialmente duas coisas: a necessária progressividade da experiência formativa na qual intervém toda a comunidade e uma renovada valorização dos sinais litúrgicos da iniciação cristã. Muitos manuais e planificações ainda não se deixaram interpelar pela necessidade duma renovação mistagógica, que poderia assumir formas muito diferentes de acordo com o discernimento de cada comunidade educativa. O encontro catequético é um anúncio da Palavra e está centrado nela, mas precisa sempre duma ambientação adequada e duma motivação atraente, do uso de símbolos eloquentes, da sua inserção num amplo processo de crescimento e da integração de todas as dimensões da pessoa num caminho comunitário de escuta e resposta”.
São enfatizados dois elementos importantes: a necessária progressividade da experiência formativa na qual intervém a comunidade e uma renovada valorização dos sinais litúrgicos da iniciação cristã.
2.1. Uma necessária progressividade da experiência formativa
A iniciação cristã é um caminho de crescimento. Quando a Igreja recuperou o processo de catecumenato ela sublinha o dado histórico essencial da economia da salvação que se desenvolve em um progresso histórico evolutivo, progressivamente revelado ao homem através de uma relação interpessoal que respeita as suas fases psicológica – existencial de amadurecimento. Este processo vai se visibilizando através de gestos e ritos, respeitando o caráter da economia da salvação, que sempre se realiza numa história concreta e é um processo comunitário[8].
Este processo dá a possibilidade de um crescimento gradual no conhecimento, no amor e no seguimento de Jesus Cristo. Assim, ela forja a identidade cristã com as convicções fundamentais e acompanha a busca do sentido da vida[9]. Esta experiência pode ser lida na progressividade da História da Salvação, no caminho de formação dos discípulos de Jesus. Já bem cedo se encontra indícios deste processo, mas a primeira notícia mais detalhada desta experiência da progressividade da experiência formativa tem-se no terceiro século do cristianismo. Hipólito de Roma o tempo de três anos para a instrução dos catecúmenos: “os catecúmenos sejam instruídos por três anos”. Porém, acrescenta: “Se algum for atento e dedicado, não se lhe considerará o tempo, somente o seu caráter – nada mais- será julgado”. Percebe-se que este período era flexível, condicionando-se ao caminho de conversão do catecúmeno. Neste tempo os catecúmenos iam a Igreja, participavam da primeira parte da celebração, ouviam a homilia, depois eram despedidos. O catecúmeno ia sendo inserido na vida da comunidade, a comunidade se sentia coparticipante deste processo, orientando-os no que diz respeito ao testemunho da fé na vida cotidiana, profissional, social e familiar. Neste processo, depois da recepção dos sacramentos da iniciação cristã, seguiam-se as catequeses mistagógicas[10]. Elas eram a explicação racional dos mistérios recebidos na noite pascal. O neófito experimentou a “Salvação”, que é Cristo, que lhe foi dada através dos “Mistérios” ou Sacramentos[11]. Os sinais são diversos, mas são sinais da única realidade, a obra salvífica de Cristo. O Catecúmeno viveu, experimentou a obra salvífica de Cristo através dos Sacramentos. O sinal só pode ser experimentado pela fé. A fé é a ligação entre os sinais e Cristo. Agora, através das catequeses mistagógicas ele receber a explicação dos mistérios que ele recebeu.
Os padres da Igreja desenvolveram este processo catecumenal como tempo necessário para o acolhimento do dom de Deus que vai se revelando através do acolhimento do querigma e que prossegue através do deixar-se moldar, transformar pela escuta da palavra e pelas catequeses (conversão moral ) e agora, recebem os sacramentos de iniciação cristã. Os sacramentos não são ações mágicas. Jean Danielou diz: “Nada mais alheio ao espírito do cristianismo primitivo que uma concepção mágica da ação sacramental. A conversão sincera e total é condição indispensável para a recepção do sacramento”[12].
Este processo coloca os sacramentos em sua relação imediata com o Mistério que os fundamenta. Ele revive “em mistério” o que foi proclamado no querigma onde o discípulo é chamado a viver dia- a- dia em seu processo batismal/pascal de conversão permanente. Os sacramentos são interpretados à luz da tipologia bíblica e redescobre-se a dimensão eclesial do sacramento, pois o discípulo foi inserido no corpo eclesial e agora deve viver edificando o corpo eclesial[13].
Este processo, retomado pelo Concilio Vaticano II e agora enfatizado pelo papa Francisco, possui um papel fundamental na formação do discípulo- missionário.
2.2. Uma Renovada valorização dos Sinais Litúrgicos da Iniciação Cristã
A integração entre catequese e liturgia é fundamental no processo catequético. Esta integração se dá pela participação na vida litúrgica da comunidade, numa integração rica entre catequese e liturgia. Através dos ritos de iniciação que o catequisando vai participando, vão marcando o crescimento da sua caminhada. O RICA prevê diversas celebrações onde o catecúmeno vai recebendo diversos símbolos. Também a catequese infantil deve ser pensada neste mesmo processo catecumenal do RICA. Alguns sinais importantes:
1. Após o Pré - Catecumenatos, os que são considerados aptos, serão admitidos no Catecumenato. No Rito de admissão, receberão o livro da Palavra de Deus. Entrega do Livro da palavra de Deus. A palavra de Deus deverá guiar a instrução dos catecúmenos, a catequese “tem que ser impregnada e embebecida de pensamentos, espírito e atitudes bíblicas e evangélicas, mediante um contato assíduo com os próprios textos sagrados...”. O catequisando deve ir sendo educado a se alimentar com a Palavra de Deus através da leitura, Lectio Divina, etc.
2. Os exorcismos, onde são manifestadas ao catecúmeno a luta entre a carne e o espírito, a importância da renúncia para alcançar as bem-aventuranças do Reino de Deus.
3. O rito de eleição, onde a Igreja admite os candidatos baseados na eleição de Deus, em cujo nome ela age. Depois vem os diversos escrutínios.
4. Ritos de preparação imediata, o rito do “Éfeta”, logo após, o rito da “Unção Pré-batismal”.
5. Os símbolos do batismo, na Vigília Pascal.
Estes símbolos e gestos celebrados na assembléia litúrgica tem uma importância fundamental neste processo e na vida do catecúmeno. São etapas que culminam com a celebração dos Sacramentos de iniciação cristã, mas que vão marcando aspectos essenciais da vida do futuro discípulo-missionário: viver da Palavra, a contínua luta para viver a vida bem –aventurada, etc.
Estes ritos acontecem em várias celebrações litúrgicas, onde o catecúmeno vai sendo introduzido no mistério de Cristo e aprendendo a viver do mistério de Cristo. A Sacrossantum Concilium mostra esta centralidade da liturgia na vida da Igreja. A liturgia é o lugar apropriado para se fazer a experiência do Mistério de Cristo. Na celebração litúrgica o catequizando faz experiência do mistério da Igreja, se sente comunidade, experimenta a alegria do Espírito, antegoza os bens celestes.
Na liturgia podemos antegozar da Liturgia celeste, podemos fazer uma experiência terrena das realidades celestes. Na liturgia podemos viver de forma experimental esta nossa tensão escatológica.[14] Nela, a Igreja se experimenta como comunidade provisória que não tem seu fim ultimo neste mundo, mas como comunidade que se reúne sempre para esperar o seu Senhor que se coloca de forma sacramental no meio dela[15]. Sua oração constante é Maranathá, vem Senhor Jesus.
A assembléia litúrgica é sinal da Igreja. Israel, povo da antiga aliança, encontrava sua identidade em uma assembleia cultica, a Qaral, que significa convocação, reunião. Qaral significa sobretudo a assembléia do povo do Sinai, onde o povo recebeu a Lei e a Aliança foi estabelecida por meio do sacrifício[16]. Nos momentos mais importantes de sua vida, Israel se reúne em assembléia litúrgica, a Qaral Iahweh: a dedicação do templo de Salomão, a grande páscoa de Exéquias, a renovação da aliança celebrada por Josias, o retomar a vida nacional e religiosa depois do exílio de Babilônia (Ne 8,2)[17]. Essa assembléia é sempre para renovação da fidelidade à aliança com Iahweh, para ouvir a sua palavra e para ratificar o pacto com ele por meio do sacrifício[18].
Jesus cumpriu todo o anuncio escatológico dos profetas. Com seus atos, fatos, palavras, Jesus declara que todos são convocados à nova assembleia do Reino dos céus. Jesus abole todos os elementos de separação e exclusão que caracterizava o Israel antigo. A Qaral continuará a ser o grande sinal, sinal local da convocação universal de Deus. Será propriamente este o sinal privilegiado da novo povo de Deus, a Igreja.[19]
Antes de subir ao céu, Jesus continuará presente no meio dos seus de uma maneira nova, que só pode ser percebida através da fé. Ele permanece através do seu Espírito animando os seus e se dá sensivelmente aos seus através de sinais sensíveis, os sacramentos[20]. Eles, como mostra São Tomás, são simultaneamente sinais rememorativo, demonstrativo e prognostico da salvação, apontam sempre cada um a seu modo, para o evento histórico - salvífico de Cristo, de sua morte e ressurreição. Enquanto signa prognostica, apontam e antecipam a realização plena e consumada na vida eterna dessa auto - expressão de Deus [21], preanunciam a glória futura que já nos foi dada na Páscoa e que deve manifestar-se na sua plenitude, transformando a realidade inteira[22]. São sinais que manifestam a tensão escatológica da Igreja e a sua provisoriedade.
A Igreja deve ser a comunidade da alegria. A alegria é um tema muito presente nas assembleias litúrgicas cristãs reunidas para celebrar a ressurreição ( At 2, 45-47; 1Pd 1,6.8). O canto e a escatologia estão interligados. “Canta-se porque é festa, festa dos redimidos, a festa parusial da libertação em cristo”.[23] O Apocalipse descreve a Jerusalém celeste projetando sobre ela as características da Igreja do seu tempo, trata repetidas vezes dos hinos e cantos dessa liturgia escatológica ( Ap 4,8.11; 5,9; 19,1-8). Recuperar esta dimensão Mistérica – celebrativa, no processo catequético, onde se aprofunda e se vive o Mistério Pascal de Cristo, deve ser uma opção fundamental da Igreja neste momento. K. Rahner diz que “o cristão do futuro ou será místico ou não será cristão”[24].
A catequese Mistagógica supõe a volta à rica tradição patrística do III, IV e V séculos. A mistagogia supõe uma metodologia própria, onde a fé não é simplesmente uma verdade racional, mas o mistério é uma realidade que se vive, que se experimenta na liturgia, na celebração da Igreja. A nossa mentalidade Ocidental dá muito valor à racionalização, parte-se da racionalização. O documento de Aparecida relembra o caminho de formação do cristão na Igreja primitiva: “teve sempre caráter de experiência, na qual era determinante o encontro vivo e persuasivo com Cristo, anunciado por autênticas testemunhas”. Trata-se de uma experiência que introduz o cristão numa profunda e feliz celebração dos sacramentos, com toda a riqueza de seus sinais. Desse modo, a vida vem se transformando progressivamente pelos santos mistérios que celebram, capacitando o cristão a transformar o mundo”[25].
2.3. Uma Metodologia Mistagógica
A Mistagogia supõe-se a experiência, a racionalização parte da celebração. O mistério é uma realidade que se experimenta na celebração litúrgica: aquilo que o catequizando aprofunda nos encontros de catequese, ele experimenta na liturgia. O Evangelho de Marcos em 3, 13-19 narra a constituição dos doze. É surpreendente que a finalidade de toda esta cena seja para que os doze “estejam com Ele”, é aqui que se coloca o acento de toda a passagem. Estejam com ele antes de tudo com uma presença física e por isso o acompanhem. Durante a paixão a porteira de Caifás quando se dirige a Pedro para acusa-lo não diz: Tu és um discípulo, mas “também tu estavas com Jesus”. A característica aqui não de ser gente que aderia intelectualmente, mas que estava fisicamente sempre com Jesus. Para este estar é a primeira coisa à qual Jesus chama. A fórmula da Aliança do Antigo Testamento era “Deus conosco e nós com Ele”. Nesta simples convivência realiza-se o povo da Nova Aliança. O verbo no conjuntivo (hína ósin), indica estabilidade, para que estivessem estavelmente com Ele. Mas, como “estar com Jesus hoje”, como fazer uma experiência viva do mistério da sua pessoa?[26]
A narrativa dos discípulos de Emaús nos apresenta uma rica metodologia de encontro com o Senhor através da Palavra e da Eucaristia. São Lucas expõe os dois meios para chegar ao reconhecimento de Jesus: as Escrituras e o partir do pão e os apresenta coligados. Somente a explicação das Escrituras não produziu nos discípulos o reconhecimento; o partir do pão é o momento em que ser verifica a descoberta de Jesus. A explicação e compreensão das Escrituras, colocada em relação com o messianismo paciente de Jesus, preparam e dispõe ao encontro com Ele e ao seu reconhecimento, por meio do partir do pão. Tendo acontecido o encontro com Jesus por meio do pão partido, a Eucaristia, a pessoa é transformada pela efusão da alegria que lhe é comunicada. Este texto nos recorda que estamos sempre a caminho, e que precisa de um significado. Que neste caminho, a Palavra de Deus nos revela o projeto de Deus a cada dia. Que diante dos desejos, das decisões e ações, diante da vida e da história, do destino, somos chamados a compreender como a ressurreição de Cristo é o selo de Deus sobre tudo aquilo que foi realizado na história da salvação do mundo. Que ele se encontra no meio do mundo e da história, no meio dos seus através de sinais simples, da Palavra e da Eucaristia. Ele mesmo se faz presente, alimenta os seus, lhes faz recuperar a alegria e a força na caminhada na história.
Este texto nos aponta um caminho pedagógico e programático que conduz ao reconhecimento, à experiência profunda com o mistério do ressuscitado. Caminho rico de humanidade, que transforma a situação existencial, que mediante o encontro com o ressuscitado conduz de volta para Jerusalém, onde está a comunidade reunida.
Conclusão
Papa Francisco repropõe elementos fundamentais para o processo catequético. A catequese como anúncio querigmático e como iniciação Mistagógica para o amadurecimento da vida cristã, encontra-se no coração da missão eclesial. O querigma deve estar presente em todas as etapas do processo da iniciação cristã. O catecúmeno experimenta, através do querigma, o amor misericordioso do Pai e sente-se envolvido nesta dinâmica de amor. Também a Mistagogia, que era uma etapa do processo catequético na Igreja primitiva, hoje precisa estar presente em todo o processo catequético e em todas as etapas do RICA. Através das diversas celebrações e símbolos o catequisando vai experimentando o mistério de Cristo e sendo inserido, sentindo-se partícipe do seu Corpo Místico que é a Igreja. Neste processo, a integração entre catequese e Liturgia é fundamental. É preciso uma metodologia que aqueça o coração e conduza à experiência com o Mistério do Senhor. A Narrativa dos discípulos de Émaus nos apresenta uma pedagogia. Palavra- Eucaristia- Comunidade. Este processo forma cristãos maduros, discípulos-missionários que terão as características destacadas por aparecida: “que tenha como centro a pessoa de Jesus Cristo, nosso Salvador e plenitude de nossa humanidade, fonte de toda maturidade humana cristã; que tenha espírito de oração, seja amante da Palavra, pratique a confissão frequente e participe da Eucaristia; que se insira cordialmente na comunidade eclesial e social, seja solidário no amor e fervoroso missionário”[27].
[1] Carta Apostólica Porta Fidei, 2
[2] CNBB, Anuncio querigmático e Evangelização Fundamental, 17
[3] F. Xavier Durrwell, O Pai Deus em seu Mistério, 154.
[4] G. Rossé, Il vangelo di Lucas. Commento esegetico e teológico, Città Nuova Editrice, 1995, 186 comenta: Che Gesù abbia mangiato in casa di Levi, figlio di Alfeo, nome di certo non inventato, assieme ad altri dello stesso mestiere, è piu che probabile; che Gesù inoltre avesse l´abitudine di frequentare questi ambienti e che tale comportamento abbia suscitato il rimprovero dei benpensanti è storicamente certo.
[5] CCE, n. 170.
[6] CNBB, Teologia e Ensino, Subsídios Doutrinais 6, 14
[7]CNBB, Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2011-2015, 41.
[8] E. Lodi, “Iniziazione – Catecumenato” in Dizionario Teologico Interdisciplinare, Marietti Editori, 1977, 291.
[9] Documento de Aparecida, 291.
[10] Segundo as notícias da Tradição Apostólica, da primeira metade do terceiro século, identificam-se as seguintes etapas:
1. Apresentação dos candidatos e a admissão após exame;
2. Período do catecumenato (geralmente de três anos);
3. Preparação próxima para os sacramentos, após uma verificação. A partir deste momento o catecúmeno é chamado de electus (eleito);
4. A iniciação sacramental, que consta de vários momentos;
5. Na noite Pascal, no decorrer da vigília pascal celebra-se os ritos sacramentais: Batismo, Crisma e Eucaristia.
6. No IV século, na semana seguinte, se tem as catequeses mistagógicas.
[11] Para a teologia Paulino “Mistério” é Cristo. A patrística permanece fiel ao significado paulino do termo. Para São Cirilo de Jerusalém mistério designa o conteúdo salutar, só acessível pela fé, tanto dos acontecimentos da vida de Cristo, como da Igreja. Esta idéia está prsente nos padres capadócios como também em S. João damasceno. São leão Magno dirá: “Desde que Cristo deixou de estar visivelmente entre nós, as aparências do Senhor e Redentor passaram para os Mistérios” (Serm. 74, 2).
[12] J. Danielou, Sacramentos y culto segun los Santos Padres, ( trad. Mariano Herranz y Afonso de la Fuente), Madri, Guadarrama, 1964, 48.
[13] F. Taborda, “Da celebração à teologia. Por uma abordagem mistagógica da teologia dos sacramentos”, in P. Cezar Costa, Sacramentos e Evangelização, Edições Loyola, 2004, 57-59.
[14] Diz a Sacrossantum Concilium nª 8 :“ Na Liturgia terrestre, antegozando, participamos da Liturgia celeste, que se celebra na cidade santa de jerusalém, para a qual, peregrinos, nos encaminhamos. Lá cristo está sentado à direita de Deus, ministro do santuário e do tabernáculo verdadeiro ; com toda a milicia do exército celestial entoamos um hino de glória ao senhor e, venerando a memória dos Santos, esperamos fazer parte da sociadade deles; suspiramos pelo Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, até que Ele, nossa vida, se manifeste, e nós apareçamos com Ele na glória.”
[15] A Sacrossantum concilium falando da presença de Cristo na Liturgia diz que ele está presente na assembléia reunida, na palavra proclamada, nas espécies do pão e do vinho consagrado, pela sua força nos sacramentos e está presente quando a igreja reza e salmodia.( S.C nª 7.)
[16] J. Gelineau, Nelle Vostre Assemblee, Brescia 1976, 59.
[17] J. Gelineau, Nelle Vostre Assemblee, 59.
[18] J. Gelineau, Nelle Vostre Assemblee, 57.
[19] J. Gelineau, Nelle Vostre assemblee, 58.
[20] F. Santoro, “A Igreja como Sacramento: Símbolo, Memória e Evento”, 270 diz: “O caráter cristológico e antropológico do sacramento implica no fato de que o evento da salvação de Jesus Cristo não pode ser relegado ao passado, mas continua concreto e tangível no fenômeno do seu corpo misterioso que é a Igreja”.
[21] K. Rahner, curso Fundamental da Fé, 495.
[22] F. Santoro, “A Igreja como Sacramento: Símbolo, Memória e Evento”, 274.
[23] D. Borborio, Acelebração da Igreja, 98.
[24] K. Rahner, “Elemente der Spiritualität in der Kirche der Zukunft” (1977), in Schriften zur Theologie, v. XIV, Zürich-Einsiedeln-Köln, Benziger, 1980, 368-381 (aqui: 375).
[25] Documento de Aparecida, 290.
[26] C. M. Martini, O Itinerário Espiritual dos Doze, Edições Loyola 1984, 47-48.
[27] Documento de Aparecida, 292.


